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sábado, 3 de maio de 2014

Ivars Petrov Primeira Parte por Marco Andre


Ivars Petrov, the Hunter

           " Ivars nasceu em uma pequena aldeia Latvia, que fica na margem do Rio Nimunas. Seu pai Orzov era um caçador e sua mãe, Inga, era uma das curandeiras e sacerdotisa pagã da aldeia. Sua mãe sempre lhe contou que quando ele nasceu os uivos dos lobos acompanhavam suas dores de parto, e que isso significa que ele havia sido escolhido e abençoado pelo Grande Lobo.
            Ele cresceu sendo criado nas tradições mágicas pagãs de seu povo e seu pai o ensinou a caçar. Desde criança, quando acompanhava seu pai e os demais caçadores da aldeia, Ivars sempre via e ouvia coisas que não eram compartilhadas pelos adultos, nem mesmo pelas outras crianças. Sua mãe lhe ensinou a lidar com o mundo espiritual, e as plantas e animais as vezes lhe ajudavam, as vezes lhe pediam ajuda, e as vezes o atrapalhavam também. Mas o que nem ele, nem sua mãe, nunca souberam explicar era um grande lobo castanho com uma marca branca na testa que parecia o acompanhar. As vezes Ivars o via, as vezes sentia sua presença, mas ele era o único que conseguia ver o mesmo. O curioso é que esse animal com olhos vermelhos só aparecia a noite...
            Quando Ivars completou 13 anos, ele fez sua passagem para a vida adulta na tradição de sua tribo: uma caçada solitária noturna. Ele saiu munido de um arco e flechas e uma adaga e foi provar ao mundo que já podia ser considerado um homem. Ele vagou por mais de uma hora sem encontrar sinais de vida, quando viu o lobo castanho com a mecha branca. Ele sabia que não deveria caçar o animal de seu totem, segundo os preceitos pagãos. Mesmo assim ele fez uma prece pedindo perdão ao Grande Lobo e disparou sua flecha mirada na cabeça do animal. Viu a flecha voando certeira em direção ao alvo, quando o alvo desapareceu e na clareira havia apenas uma estranha névoa, que misteriosamente se deslocou sem vento e sumiu na escuridão. Ivars tinha certeza que havia insultado seu totem e se ajoelhou na clareira chorando e implorando perdão aos ancestrais e ao espírito do Grande Lobo.
            Foi então que escutou a Voz do Grande Lobo pela primeira vez, e suas palavras ele nunca esqueceu: "Caçador, escute bem. Há predadores e presas no seu mundo, e você tentou caçar um predador maior que você. Siga a Fera Interior e faça sua passagem."
            Sentiu que deveria se levantar e pegar suas armas e seguir para o Leste, onde pouco mais de uma hora encontrou uma corça a beber água como se estivesse sozinha na floresta. Sua pontaria foi precisa e Ivars agradeceu a corça pela dádiva de sua vida, tirou sua pele, salgou sua carne e comeu seu coração cru ainda quente. Voltou para a aldeia com sua caça e quando percebeu chegava junto com o amanhecer, e seus amigos e parentes o aguardavam ansiosos. Não havia percebido que passara a noite inteira caçando, e sua mãe o fitava feliz, porém assustada. Sua chegada com a face suja de sangue, sua presa morta em seus braços era um pesadelo que a assombrava desde a sua gravidez.
            O banquete de sua passagem foi memorável e Ivars foi admitido oficialmente entre os caçadores de sua aldeia. A vida era boa e uma tempestade surgia no horizonte. A chegada de mercadores germânicos fez com que Ivars aprendesse seu idioma, pois era o caçador mais novo e a ele coube a tarefa que ninguém queria de lidar com os estrangeiros. Convivia bem com os estrangeiros, mas não aceitava a forma como desdenhavam de seus conterrâneos e de seu modo de vida. Ouvia eles chamando a si e seus irmãos de bárbaros, pagãos e hereges, e isso o incomodava cada vez mais.
            Quando completou 17 anos foi convidado por um dos mercadores com quem fizera amizade para ir a Viena e não apenas vender o produto de seu trabalho, como a conhecer a "civilização"...
            O que ele encontrou o deixou enojado e revoltado: ganância, corrupção, indiferença, soberba, inveja e as pessoas maltratando as outras gratuitamente. Não existia comunidade, camaradagem ou as pessoas se ajudando. As pessoas julgando pela aparência, querendo tirar vantagens das demais, roubos... Ele não aguentou ficar três dias naquele lugar horrível, e voltou para sua aldeia.
            O que havia sido sua aldeia. Os cruzados evangelizadores católicos que ali passaram haviam saqueado sua aldeia, assassinado sua família e seus amigos. Encontrou os corpos de sua mãe e de outra mulheres estuprados e mutilados, seu pai esquartejado e seus amigos mortos covardemente. Pegou seu arco e seguiu o rastro dos "bárbaros", encontrando o acampamento dos mesmos. Já havia matado 4 com seu arco quando foi atacado por oito cruzados, tendo conseguido matar ou incapacitar outros cinco quando foi capturado. Passou um dia sendo torturado e espancado. Pediu que seus ancestrais lhe desse coragem para morrer enfrentando seus algozes, mas não tinha forças para reagir. Acreditava que estava morrendo, e quando o sol se pôs ouviu a mesma Voz lhe dizendo: "Caçador, suas preces foram ouvidas. Seus ancestrais o abençoam e lhe fortificam para que leve a cabo sua vingança."
            Fome. Tudo o que sentia era fome. Fome e raiva. Fome e ódio. Fome e força???
            Suas feridas cicatrizadas, percebia tudo de forma mais intensa. Sentia aromas que nunca havia percebido, sons nunca antes escutados, e a noite era clara como o dia. Fome. Uma sensação que sobrepujava tudo. Fome e ódio. Ouviu o sangue correndo nas artérias ao mesmo tempo que sentia o cheiro acre e delicioso do sangue. Arrebentou as cordas que o prendiam e atacou com selvageria o cruzado que estava fazendo sua guarda, mordendo o pescoço do mesmo e bebendo o doce, quente e aveludado sangue que jorrava do pescoço dilacerado do cruzado. Sentiu sua força, reflexos e resistência aumentarem e a Fome quintuplicou. Atacou todos os cruzados do acampamento e dilacerou a todos, bebendo seu sangue e se nutrindo da força de seus oponentes para realizar sua vingança. Após se certificar que nenhum sobrevivia, pegou de volta seu arco, que havia feito com seu pai, sua adaga, flechas e um machado. Mergulhou na floresta e a mesma o abraçou.
            Longe do convívio humano, o que é a passagem do tempo? Noites, semanas, meses se passaram e Ivars existia na floresta, e a floresta o acolheu. Encontrava abrigo facilmente, e quando sentia fome caçava e bebia. Sempre soube que havia algo em comum entre os homens e os animais, mas só teve certeza quando sentia a Fome pela primeira vez. Não há raciocínio, diálogo ou dúvidas. Só há ação. A Fome precisa ser saciada, e saciada ela será. Não importa como, onde ou com o que. Aprendeu a caçar de verdade, a se alimentar sem matar quando não precisava, e a matar com rapidez e precisão. Tinha garras, e elas eram afiadas. Havia se encontrado na Besta que havia dentro de si. Mas as visões o atormentavam. Corpos torturados e violentados, mutilados por um prazer profano e mórbido. Apenas humanos fazem isso, torturam, mutilam e violentam por prazer ou desejo. Via os corpos, ouvia pedidos de ajuda. E de não tivesse viajado? E se tivesse tido a chance de lutar com seu pai e seus irmãos? Os cruzados morrendo em suas mãos, e dentes, o sangue por todo o lado...

            Eis que uma noite encontra um lobo. Castanho. Com uma mecha branca na testa. E o mesmo se ergue e se transforma em uma pessoa. Mas ele não estava vivo. Assim como Ivars. E ele falou: "Caçador, me escute. Sou Harbard e fui eu quem o salvou da morte pelos cruzados e lhe deu as ferramentas para se vingar. Seus ancestrais lhe dão força e guiam seus passos, e sei que já encontrou a Fera dentro de si. Viaje comigo e lhe ensinarei a ser um com ela e ela consigo."
            Aceitei o convite, pois sabia que suas palavras eram verdadeiras. Além disso outro Lobo me disse que deveria ir com ele e aprender o seu caminho. Seus ancestrais o abençoavam, um lobo viajava com ele nesse mundo e outro lobo viajava com ele em outro mundo. O vento sopra em seu rosto, as noites são claras, e há muitas presas. Que a caçada comece."



Parte II: Enxerto e ficha

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