Ivars Petrov, the Hunter
" Ivars
nasceu em uma pequena aldeia Latvia,
que fica na margem do Rio Nimunas.
Seu pai Orzov era um caçador
e sua mãe, Inga, era uma das curandeiras e
sacerdotisa pagã da aldeia. Sua mãe sempre lhe contou que quando ele
nasceu os uivos dos lobos acompanhavam suas dores de parto, e que isso
significa que ele havia sido escolhido e abençoado pelo Grande Lobo.
Ele cresceu sendo criado nas tradições
mágicas
pagãs
de seu povo e seu pai o ensinou a caçar. Desde criança, quando acompanhava
seu pai e os demais caçadores da aldeia, Ivars sempre via e ouvia coisas que não
eram compartilhadas pelos adultos, nem mesmo pelas outras crianças.
Sua mãe
lhe ensinou a lidar com o mundo espiritual, e as plantas e animais as vezes lhe
ajudavam, as vezes lhe pediam ajuda, e as vezes o atrapalhavam também.
Mas o que nem ele, nem sua mãe, nunca souberam explicar era um
grande lobo castanho com uma marca branca na testa que parecia o acompanhar. As
vezes Ivars o via, as vezes sentia sua presença, mas ele era o único
que conseguia ver o mesmo. O curioso é que esse animal com olhos vermelhos só
aparecia a noite...
Quando Ivars completou 13 anos, ele
fez sua passagem para a vida adulta na tradição de sua tribo: uma caçada
solitária
noturna. Ele saiu munido de um arco e flechas e uma adaga e foi provar ao mundo
que já
podia ser considerado um homem. Ele vagou por mais de uma hora sem encontrar
sinais de vida, quando viu o lobo castanho com a mecha branca. Ele sabia que não
deveria caçar o animal de seu totem, segundo os preceitos pagãos.
Mesmo assim ele fez uma prece pedindo perdão ao Grande Lobo e disparou sua flecha
mirada na cabeça do animal. Viu a flecha voando certeira em direção
ao alvo, quando o alvo desapareceu e na clareira havia apenas uma estranha névoa,
que misteriosamente se deslocou sem vento e sumiu na escuridão.
Ivars tinha certeza que havia insultado seu totem e se ajoelhou na clareira
chorando e implorando perdão aos ancestrais e ao espírito
do Grande Lobo.
Foi então que escutou a Voz
do Grande Lobo pela primeira vez, e suas palavras ele nunca esqueceu: "Caçador,
escute bem. Há predadores e presas no seu mundo, e você
tentou caçar um predador maior que você. Siga a Fera Interior e faça
sua passagem."
Sentiu que deveria se levantar e
pegar suas armas e seguir para o Leste, onde pouco mais de uma hora encontrou
uma corça
a beber água
como se estivesse sozinha na floresta. Sua pontaria foi precisa e Ivars
agradeceu a corça pela dádiva de sua vida, tirou sua pele,
salgou sua carne e comeu seu coração cru ainda quente. Voltou para a
aldeia com sua caça e quando percebeu chegava junto com o amanhecer, e seus
amigos e parentes o aguardavam ansiosos. Não havia percebido que passara a noite
inteira caçando, e sua mãe o fitava feliz, porém
assustada. Sua chegada com a face suja de sangue, sua presa morta em seus braços
era um pesadelo que a assombrava desde a sua gravidez.
O banquete de sua passagem foi memorável
e Ivars foi admitido oficialmente entre os caçadores de sua aldeia. A vida era boa e
uma tempestade surgia no horizonte. A chegada de mercadores germânicos
fez com que Ivars aprendesse seu idioma, pois era o caçador mais novo e a
ele coube a tarefa que ninguém queria de lidar com os estrangeiros.
Convivia bem com os estrangeiros, mas não aceitava a forma como desdenhavam de
seus conterrâneos e de seu modo de vida. Ouvia eles chamando a si e seus
irmãos
de bárbaros,
pagãos
e hereges, e isso o incomodava cada vez mais.
Quando completou 17 anos foi
convidado por um dos mercadores com quem fizera amizade para ir a Viena e não
apenas vender o produto de seu trabalho, como a conhecer a "civilização"...
O que ele encontrou o deixou enojado
e revoltado: ganância, corrupção, indiferença, soberba, inveja
e as pessoas maltratando as outras gratuitamente. Não existia
comunidade, camaradagem ou as pessoas se ajudando. As pessoas julgando pela
aparência,
querendo tirar vantagens das demais, roubos... Ele não aguentou ficar três
dias naquele lugar horrível, e voltou para sua aldeia.
O que havia sido sua aldeia. Os
cruzados evangelizadores católicos que ali passaram haviam saqueado
sua aldeia, assassinado sua família e seus amigos. Encontrou os corpos
de sua mãe
e de outra mulheres estuprados e mutilados, seu pai esquartejado e seus amigos
mortos covardemente. Pegou seu arco e seguiu o rastro dos "bárbaros",
encontrando o acampamento dos mesmos. Já havia matado 4 com seu arco quando
foi atacado por oito cruzados, tendo conseguido matar ou incapacitar outros
cinco quando foi capturado. Passou um dia sendo torturado e espancado. Pediu
que seus ancestrais lhe desse coragem para morrer enfrentando seus algozes, mas
não
tinha forças para reagir. Acreditava que estava morrendo, e quando o
sol se pôs
ouviu a mesma Voz lhe dizendo: "Caçador, suas preces foram ouvidas. Seus
ancestrais o abençoam e lhe fortificam para que leve a cabo sua vingança."
Fome. Tudo o que sentia era fome.
Fome e raiva. Fome e ódio. Fome e força???
Suas feridas cicatrizadas, percebia
tudo de forma mais intensa. Sentia aromas que nunca havia percebido, sons nunca
antes escutados, e a noite era clara como o dia. Fome. Uma sensação
que sobrepujava tudo. Fome e ódio. Ouviu o sangue correndo nas artérias
ao mesmo tempo que sentia o cheiro acre e delicioso do sangue. Arrebentou as
cordas que o prendiam e atacou com selvageria o cruzado que estava fazendo sua
guarda, mordendo o pescoço do mesmo e bebendo o doce, quente e aveludado sangue que
jorrava do pescoço dilacerado do cruzado. Sentiu sua força,
reflexos e resistência aumentarem e a Fome quintuplicou. Atacou todos os
cruzados do acampamento e dilacerou a todos, bebendo seu sangue e se nutrindo
da força
de seus oponentes para realizar sua vingança. Após se certificar que nenhum sobrevivia,
pegou de volta seu arco, que havia feito com seu pai, sua adaga, flechas e um
machado. Mergulhou na floresta e a mesma o abraçou.
Longe do convívio humano, o que é
a passagem do tempo? Noites, semanas, meses se passaram e Ivars existia na
floresta, e a floresta o acolheu. Encontrava abrigo facilmente, e quando sentia
fome caçava
e bebia. Sempre soube que havia algo em comum entre os homens e os animais, mas
só
teve certeza quando sentia a Fome pela primeira vez. Não há
raciocínio,
diálogo
ou dúvidas.
Só
há
ação.
A Fome precisa ser saciada, e saciada ela será. Não importa como, onde ou com o que.
Aprendeu a caçar de verdade, a se alimentar sem matar quando não
precisava, e a matar com rapidez e precisão. Tinha garras, e elas eram afiadas.
Havia se encontrado na Besta que havia dentro de si. Mas as visões
o atormentavam. Corpos torturados e violentados, mutilados por um prazer
profano e mórbido. Apenas humanos fazem isso, torturam, mutilam e
violentam por prazer ou desejo. Via os corpos, ouvia pedidos de ajuda. E de não
tivesse viajado? E se tivesse tido a chance de lutar com seu pai e seus irmãos?
Os cruzados morrendo em suas mãos, e dentes, o sangue por todo o
lado...
Eis que uma noite encontra um lobo.
Castanho. Com uma mecha branca na testa. E o mesmo se ergue e se transforma em
uma pessoa. Mas ele não estava vivo. Assim como Ivars. E ele falou: "Caçador,
me escute. Sou Harbard e fui eu quem
o salvou da morte pelos cruzados e lhe deu as ferramentas para se vingar. Seus
ancestrais lhe dão força e guiam seus passos, e sei que já encontrou a Fera
dentro de si. Viaje comigo e lhe ensinarei a ser um com ela e ela
consigo."
Aceitei o convite, pois sabia que
suas palavras eram verdadeiras. Além disso outro Lobo me disse que
deveria ir com ele e aprender o seu caminho. Seus ancestrais o abençoavam,
um lobo viajava com ele nesse mundo e outro lobo viajava com ele em outro
mundo. O vento sopra em seu rosto, as noites são claras, e há muitas presas. Que
a caçada
comece."
Parte II: Enxerto e ficha
Parte II: Enxerto e ficha
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